Tuesday, 4 March 2008

Carta à mulher

Tu, mulher, ser camaleão. Tu consegues ser várias personagens ao mesmo tempo. Mulher-mãe, mulher-esposa, mulher-filha, mulher-família, mulher-irmã, mulher-trabalhadora, mulher-consagrada e apenas mulher. Obrigado por existires.
Foste tu que trouxeste a beleza, o trabalho, o amor, a compaixão e a dedicação. És tu que consegues curar os homens das feridas de guerra. Tu tens o poder de regenerar a humanidade, o teu coração é um manancial de sabedoria, o teu ventre é a fonte da vida.
Mulher, perdoa todos os homens. Tentamos prestar-te o devido respeito, mas é difícil estar à tua altura. Apenas resta-nos tentar acompanhar-te.
A mulher é a razão do homem existir, do homem trabalhar, do homem pensar e tentar sentir.
Desde a Eva, passando por Maria e Madalena, até ao presente, o sexo feminino é a referência de toda a humanidade. És o elemento que faz o dia nascer, és a força que faz a terra girar.
Vim do ventre da minha mãe, mulher madura que me criou. Agora desejo uma mulher madura para continuar o ciclo.
Por favor, não te deixes enganar pela nossa estupidez. Todos os homens são seres que se perderam ao saírem do colo da mãe. Mulher, nunca percas a delicadeza, nunca páres de olhar-te ao espelho, nunca páres de cuidar-te. Não te queiras transformar-te em homem. Tu és um ser insubstituível e fazes imensa falta. Tu és linda a sorrir. Não te rendas ao consumismo e à vida fútil, tu és deveras superior a estes comportamentos. Tu és muito importante para nós.
Nunca me cansarei de dizer o teu nome. Mostra-me que não estou enganado.

Monday, 3 March 2008

Primavera entre coelhos

Os coelhos estavam a aproveitar o tempo primaveril - comportamento aprendido desde a barriga da mãe, quando o dono chega e diz:
- Mas que vem a ser isto! - enquanto aponta para o sinal. Este sinal diz que o coelho não pode estar atrás da coelha.
Os dois coelhos olham pasmados para o sinal e passados momentos, o coelho vira a parceira ao contrário e continuam o acto natural.

Amor entre gorilas

O gorila Gingão, com a tanga de tigre, sobe a palmeira até à casa da Matumbina. Com côcos nas mãos, enche o peito e grita:
- Querida Matumbina!
- Diz-me amor - replica a sua amada.
- Trago-te côcos. Foram recolhidos do coqueiro mais alto da selva.
- Como és tão forte - Matumbina derrete-se com a virilidade do seu amor.
Gingão flecte os braços de forma máscula para mostrar os grandes montes de força, ao mesmo tempo que regozija o grande feito.
- Vou-te preparar uma água de côco - diz Matumbina.
Gingão sente que tem a amada sobre o seu círculo de domínio e sente-se cada vez mais forte.

Frasco de perfume

Rosa, perfume, cheiro, estou sentado à beira da cómoda. Com dois dedos tiro a tampa do frasco de cristal, boémio como o meu espírito, mas mais activo que a minha personalidade. É de certeza perfume digno de grande nobreza. Cheiro a ponta da tampa e sinto pequenos fios ondulantes a saracotearem-se pelo espaço, deixando partículas deliciosas pelo caminho.
Trata-se de um perfume subtil, em que se coloca duas gotas nos pulsos da mulher, encosta-se ao nariz e inspira-se com intensidade, enchendo os pulmões de sensualidade e relaxamento.
Eu tento ser feliz com a realidade, mas a imaginação consegue ser mais forte do que eu. Ela faz-me refém da vida e está constantemente a intrometer-se no caminho. Umas vezes voluntariamente, outras vez obrigada por terceiros. Eu não resisto à beleza. Trata-se da maior tentação existente.
Imagino-te à minha frente, sentada sobre a mesma cómoda a sacudires os cabelos e, logo de seguida, a afagá-los com uma escova branca, transmitindo-me paz.
Sentas-te na beira da cama, eu sento-me ao piano e começo a tocar uma melodia suave. Tento descrever pelas teclas o cheiro sublime que exalas. Cada sequência de harpejos tocados em pianíssimo corresponde a uma centelha de perfume.
Mas tu não estás ao pé de mim, estás num mundo inantingível. Ainda não nasci com o poder de criar almas. Fecho o frasco porque tenho que ir trabalhar.

Sunday, 2 March 2008

A velhice

Estou tão magro. Os meus pés estão cheios de manchas castanhas. Parecem borrões feitos com lixívia. Mal consigo olhar para mim, sou uma zebra pintada de doenças e nódoas negras. Os dentes saltam do meu interior. O meu aspecto cadavérico, seco, mostra como estou cada vez mais próximo da terra e das larvas.
Admito que fui cobarde por nunca ter-me entregado à natureza, mas a sociedade e a família não me deixaram. Já próximo da entrada deste novo mundo, prestes a apodrecer e a gretar, espero que algo mais esperançoso me traga serenidade ao coração e me ensine a ser um sublime revolucionário.

Quarto escuro, quarto triste.

Estou sózinho escondido neste quarto escuro,
sinto falta de uns olhos onde possa imaginar.
Estou sózinho a passear num preto vazio,
sinto falta de uma alma que me possa acompanhar.

Estou sózinho a encontrar o caminho,
rezo por encontrar forças por detrás dos armários,
como traças e teias de aranhas sem sentido,
gasto as tábua do chão por andar sempre em círculos.

Estou sózinho porque ninguém me vê,
não consigo vender o reflexo dos meus sonhos
a um único ser com ouvidos.

Existem mais de mil quartos iguais ao meu,
cheio de anónimos que morrem pelo caminho,
espero ter um fim glorificado pelos sentidos.

A praia

Terra, gravilha, areia e mar,
fui à praia num fim de um dia de estio,
após acordar de uma sesta com cheiro a palha,
pelo chão seco e quente passeei o espírito infantil.

Caminhei quilómetros até ao destino,
percorri pausadamente até à alegria,
fiz uma história de sonhos pelo caminho,
guardei-os na imaginação reservada para este dia.

Tomei banho num mar acabado de ser usado,
onde guarda os raios de sol na espuma,
mergulhei por debaixo de um bater ritmado.

Levantava-me e procurava o horizonte,
a minha linha guia para continuar,
Espuma, sal e sonhos, em vão, dissolvidos.