lundi 28 avril 2008

Primeiro dia

No meu primeiro dia,
subi as escadas cheia de vida,
um adulto se erguia em mim,
preparado para a luta continua.

Vestido a rigor,
para querer imitar os adultos,
de colarinho firme e imaculado,
com um rosto brilhante e barbeado.

Apresentei-me, sentei-me,
rodei-me de trabalho,
a novidade trazia a excitação,
própria do momento criado.

Tudo mudou quando uma bomba explodiu,
cheia de sede de vingança,
a minha alegria sumiu,
inocência própria da criança.

Do meu entusiasmo,
o pânico foi criado,
o meu colarinho manchado,
o meu sorriso transformado.

O cheiro a chão queimado
ergueu-se pelo ar,
résteas de papel queimado
dificultava-me a respirar.

Em pânico, partiram-se janelas,
sacudiu-se panos,
do inóspito gerou-se tristezas,
a minha alma secou-me os olhos.

O meu primeiro dia,
tornou-se diferente,
o futuro que podia ter,
foi travado pelo presente.

De repente tudo parou,
gritos, foi a última coisa que ouvi,
sem perceber donde começou,
caí sem conhecer o fim.

Agora escrevo este poema,
sentado numa nuvem do céu,
olho para o local onde estava
e choro por quem morreu.

mercredi 23 avril 2008

Kafka

Quando se sentirem desorientados não se esqueçam da seguinte frase escrita por Kafka:
"you are free, that is why you are lost."

O tempo tem um poder curativo inexplicável. Demora é tempo a disfarçar as feridas.

jeudi 17 avril 2008

9/11

Erguias-te tão bem, forte, viril, pujante, acima de qualquer mediano. No entanto, esqueceste como estavas desprotegida, como era tão fácil atingir-te. Assim, foste a primeira a cair e tu levastes quem estava dentro de ti.

Quantos corações destroçastes, quantas viúvas criastes, quantos Homens deixastes despidos. Tantas mãos que limparam as lágrimas, tantas almas que petrificastes, tantas pessoas que pararam para te ver morrer.

Fuga

Passeio pela rua,
piso pedra,
piso terra,
piso o chão,
piso tudo
menos os pensamentos vãos.

Deambulo para a lua
me ver,
o que faço,
porque grito,
que caminho
percorro até ao infinito.

Estou farto da realidade,
silêncio,
muita gente,
gritaria,
por mim,
já basta viver os dias.

Como eu quero fugir,
para os
teus braços,
receber
abraços,
encontrar os meus sonhos.

Para a vida

Para os recém-namorados
cheios de esperanças vã,
dou-vos beleza,
dou-vos Chopin.

Para os sofredores,
para quem grita por Ti,
para quem tem medo do fim,
dou-vos Albinoni.

Para quem vive na natureza,
para quem parte e reparte
o silêncio da ausência,
dou-vos Arvo Part.

Para todos os que morreram,
para todos que estão a morrer,
para os que estão a sofrer,
dou-vos Samuel Barber.

mercredi 16 avril 2008

Amanhã, amanhã

Quando vou falar contigo?
amanhã, amanhã.
Quando me torno teu amigo?
amanhã, amanhã.
Quando vou ouvir a tua voz?
amanhã, amanhã.
Quando de mim nasce um nós?
amanhã, amanhã.
Quando te vou conhecer?
amanhã, amanhã.
Quando te vou ver ao amanhecer?
amanhã, amanhã.
Quando vais dizer que sim?
- Quando o sol acordar.
amanhã, amanhã.
Se me convidasses para sair,
eu diria hoje,
mas o sonho não se realiza,
não sei quando vou sorrir,
talvez amanhã, amanhã.

samedi 5 avril 2008

Quando fui criança

Este terreno árido e estéril,
outrora, verde e fértil,
enchia-se de brincadeiras infantis,
aqui fui muito pueril.

Esta estrada remendada e esquecida,
outrora, sítio de muito movimento,
era o caminho para chegar à praia
que se descia ao sabor do vento.

Lembro-me deste pinheiro, deste marco,
estas memórias não caíram no esquecimento,
graças aos objectos insignificantes e pequenos,
o passado ainda vive no presente momento.

Perder a inocência

Das mãos de uma criança,
molda-se a alegria e nasce uma pomba,
das mãos do homem,
empenha-se um punho e nasce uma bomba.

Dos olhos de uma criança,
o mundo é sempre perfeito,
dos olhos de um homem,
a raiva nasce de um amor desfeito.

De um sorriso de uma criança,
mostra-se uma inocência sempre pura,
Um homem jamais sorri,
porque já não reconhece a candura.

O choro de uma criança
vem de algo simples que perdeu,
um homem já não chora,
vela as lágrimas de quem sofreu.

vendredi 4 avril 2008

Canto I

Canto, sim senhora, às tetas da donzela,
porque são boas como tudo,
e como eu quero espremê-las
e delas quero sorver o fruto.
Não serei o primeiro, nem o último.

Minha senhora, por onde ides?
O que levai consigo?
Um cesto cheio de manjares,
Deixe-me provar um bocadinho.

Nesse caminho só encontrará tolos,
sempre cheios de cantigas,
porque não se senta neste bordo
e aprecia estas lindas colinas.

Que paisagem maravilhosa,
é uma delícia para quaisquer olhos,
aceite esta linda rosa,
sinta estes cheiros maravilhosos.

Exclamação

Mas o Bocage era um grande devasso,
era um profano que queria sempre mais,
rodeava-se de mulheres no palácio,
ele gostava de orgias e bacanais.

jeudi 3 avril 2008

Amor não correspondido

Já tentaste descrever o que é ter
que deixar de olhar para quem gostas?
Tu desejaste estar sempre com ele,
mas foste rejeitada e foi-se embora.

Obrigou-te a olhar para o futuro,
deixaste de ser dona de ti própria,
a tua vida entrou em ruptura,
agora vives agarrada à metadona.

Tentas deseperadamente esquecê-lo,
mas as recordações são permanentes,
sentes-te sem coração e cheia de vazio,
mas já não o tens. Bem-vindo ao presente.

Esperas pelas palavras que te dizia,
mas apenas ouves "amo-te" no silêncio,
esperas um abraço forte e seguro,
mas apenas sentes o vento.

Desejas que ele volte com aquele sorriso,
que a mesma sombra quente te ronde,
que a oportunidade de seres feliz, apareça,
mas já não o tens. Bem-vindo ao presente.

Tens o teu íntimo profanado,
mostraste-lhe sempre o que sentias,
a tua energia morreu com a tua alegria,
como resultado, ele deixou-te um ferida.

É isso o que sinto por ti.

mercredi 2 avril 2008

HHC

Hábil é aquele que aproveita
os minutos a investir no destino,
aquele que assumiu uma missão
e que não precisa mudar de caminho.

Humilde é aquele que nunca se esquece
das necessidades e do trabalho,
aquele que não precisa de sobrepôr-se
para lutar pelo seu sonho.

Corajoso é aquele que assumiu os gostos
e não se rende à maioria,
aquele que mostra às pessoas
que há muita vida para ser vivida.

Inteligente é aquele
que com humildade, habilidade
e coragem vive o seu dia.

O coxo

Pelas costas vejo-te a alma
em consonância com o que pensas,
sobre a tua cabeça ergue-se algo
que bate numa consciência.

De costas não existem os olhos,
nem boca, nem palavras,
apenas vejo-te como um humano,
com todo o valor que representas.

De ritmo desconcertado,
coxeias à medida que andas,
disfarçando os percalços.

Mas os calços que calças
não disfarçam os saltos que saltas
à medida que manquejas.