lundi 31 mars 2008

Cancro

Quando os teus olhos forem-se embora
inesperadamente, sem deixar uma despedida,
deixar-nos-à desamparados, nús de alma,
entregues a nós, entregues à vida.

A tua juventude foi substituída
por esse cancro, células malignas
que se alojaram em ti, inquinando
o teu sangue, infectando a nossa família.

Rodela negra, inconsistente,
donde todos os vermes brotam,
sanguessugas nojentas e letais,
essas larvas que te derrotam.

Deus deu o sol, as crianças e a vida,
como também trouxe a renovação,
a cada dia que passa somos mais mortais,
mais figadais às nossas vísceras.

A vida goza, manda, estipula o nosso destino,
sem dó nem piedade. Diz quem fica e quem vai,
quem sofre e fica sem pai. Só nos resta levantar a voz
e honrar todos os homens que pereceram antes de nós,
antes que seja tarde de mais.

samedi 29 mars 2008

Limite

Quando escolho um ponto no espaço,
fixo o meu lugar, limito o alcance,
não sei se da minha escolha, padeço,
faço a vida a partir de uma chance.

Todos os pontos exteriores foram esquecidos,
não sei o que perdi por não ter olhado,
coisas espectaculares devem ter acontecido,
porque por aqui está tudo parado.

Os corações são pontes que ligam almas,
as mãos ligam pessoas, as pessoas criam a humanidade,
em grupo, no telhado, o chão colma,
mas só posso entregar-me a uma verdade.

Remoinhos

Dentro de mim estão remoinhos
de esperança, de fúria e de medos.

Eles lutam para conjugarem-se
num espaço cheios de sonhos cadentes.

Tornei-me num corpo remendado
de tentativas frustradas. Acabado!

Tenho o desespero de ter muito para dar
e de ficar pelo caminho, sempre a tentar.

Transpiro insegurança e dúvidas,
o medo de gritar por Deus e ele não me salvar.

Os meus sonhos foram devolvidos à loja,
à espera que outro os veja.

Ninguém compra o que acredito,
o que choro, o que grito.

Tenho muito trabalho para fazer
por dentro para poder renascer.

Reflorir

O silêncio cicatriza as feridas,
cobre-as de folhas num instante,
de amarelo de Outono gera vidas,
o silêncio é um tipo de calmante.

O amor é como beber chocolate,
de tão doce, o amargo arde por dentro,
a azia e o sofrimento que haste,
num corpo tão doente e tão dormente.

Deixei de ser a ingénua criança,
quando metade de mim pereceu
dentro da minha primeira mulher.

Só irei encontrar o resto da esperança,
quando da outra metade que morreu,
outra mulher renascer o meu ser.

jeudi 27 mars 2008

Mais um dia

A cada dia que passa,
biliões de balas são criadas
só para ti.
Queres uma?

A cada dia que passa,
milhares de cigarros
são criados.
Queres um?

Cada bala disparada,
bling,
cada cigarro acendido,
bling.

Quaisquer das escolhas
faz-me rico
e leva-te até à morte.
Faz parte da vida.

Sou Presidente

As pessoas gritam
com os meus cânticos.
Saltam, andam
por onde quero.
E aos que se opõem,
crio leis.
Sou tão poderoso!
Apreciem as minhas roupas,
a minha casa,
a minha arma,
porque eu aponto-a
para todos vós.

Cada um vai receber uma bala,
a última é guardada para mim,
porque nunca a vou disparar.
Eu faço o que quero
porque deixaram-me.
Gritem comigo,
"Vivam os ideais,
vivam os ideais!"
Vocês, manada,
obrigado. Adoro-vos.

Dei-vos notícias falsas
que alimentam o vosso ego.
Dei-vos música e agora
andam a perder tempo
a convencerem-se com opiniões.
Vocês lutam entre si,
para sobressaírem-se,
para mostrarem-se a mim,
mas eu não quero saber
e finjo o contrário.
Otários.

Eu sou um sociopata,
compro relógios de ouro,
digo ao mendigo
que não tenho dinheiro.
Fecho os olhos como vocês,
porque acredito em Deus.
Ele há-de trabalhar por mim,
vocês trabalharão por Ele,
eu mando em vocês
e amo-vos a todos.

Do The Evolution - Pearl Jam

I'm ahead, I'm a man
I'm the first mammal to wear pants, yeah
I'm at peace with my lust
I can kill 'cause in God I trust, yeah
It's evolution, baby

I'm at piece, I'm the man
Buying stocks on the day of the crash
On the loose, I'm a truck
All the rolling hills, I'll flatten 'em out, yeah
It's herd behavior, uh huh
It's evolution, baby

Admire me, admire my home
Admire my son, he's my clone
Yeah, yeah, yeah, yeah
This land is mine, this land is free
I'll do what I want but irresponsibly
It's evolution, baby

I'm a thief, I'm a liar
There's my church, I sing in the choir:
(hallelujah, hallelujah)

Admire me, admire my home
Admire my son, admire my clones
'Cause we know, appetite for a nightly feast
Those ignorant Indians got nothin' on me
Nothin', why?
Because... it's evolution, baby!

I am ahead, I am advanced
I am the first mammal to make plans, yeah
I crawled the earth, but now I'm higher
2010, watch it go to fire
It's evolution, baby
Do the evolution
Come on, come on, come on

Pequena rapariga

Pequena rapariga,
quero ser o teu namorado.
Deixas-me?

Gostava de beijar
a tua cara.
Deixas-me?

Gostava de ver
todos os dias
os teus olhos.

Gostava
de apertar
a tua mão.

Pequena rapariga,
por favor,
não digas não.

Crime

Corro,
corro,
corro,
arfo,
respiro,
não sinto as pernas.

Árvores,
árvores,
árvores,
terra,
pedras,
querem apanhar-me.

Fujo,
fujo,
fujo,
fuga
perdida,
apanharam-me.

Grito,
grito,
grito,
faca,
suplico,
golpe bem dado.

Sangue,
sangue,
sangue,
choro
sem volta,
deixaram-me sózinho.

Parado,
parado,
parado,
não consigo
parar
a morte certa.

Livre triste

Sou um livre triste,
fui abandonado,
até levaram
o meu dever.
Estou sózinho
e sem quaisquer
obrigações.
Estou parado,
a descansar,
porque não tenho
qualquer mulher.

Vilancete da mulher

Irmã, preciso dos teus conselhos,
da minha boca só sai tédio,
nas palavras, ninguém me leva a sério.

Procuro ser o mais delicado,
mas de tanta delicadeza só sai desastre,
é um embaraço que se haste
que no fim saio cansado,
feito num trapo esfarrapado
e já ninguém me leva a sério.
Sou um grande tédio.

Irmã, preciso dos teus conselhos,
preciso de um conselho de mulher,
preciso do teu saber.

Sou um desastre entre esses seres,
de tanto cuidado, elas fogem,
as mágoas de amor oprimido nascem
o amor a sério nunca floresce,
o sentimento de solidão cresce,
falta-me tudo o que poderia ter.
Irmã, quando acabas por nascer?

mercredi 26 mars 2008

Obrigado por nada

Obrigado por me teres magoado,
apareceste à minha frente cheia de fel,
sem perceber porque razão assim falaste,
eu sou o actor que tem o menor papel.

As vezes que te aproximaste
foi sempre de forma dura,
disponibilizei-me para compreender
a razão da tua agrura.

Sou a pessoa que mostrou interesse,
não percorri um grande troço
porque não tinha nada para fazer,

talvez se parasses e pensasses,
irias compreender o esforço
que faço para te entender.

mardi 25 mars 2008

Amigo indesejado

Truz-Truz.
- Quem é?
- É a rejeição. Voltei...
- Qual é o teu problema agora?
Não há mais ninguém para chatear?
Já estou farto de ver a tua cara,
está na hora de abandonares esta casa,
não estou com vontade em te ver.
Já lá vão esses tempos.

- Mas meu amigo, tu sabes o que te aguarda?
- O que me aguarda é o que eu quero ser,
não tenho que dar satisfações a alguém,
não pedi nada, não têm que cobrar,
pega nas tuas coisas e vai-te embora,
tenho muito trabalho para fazer,
muitas coisas para conquistar,
tenho que encontrar o meu lugar
e não quero mais contratempos.

Lamentos

Por tão pouco não queres saber,
por tão pouco preferiste esquecer,
nuvens de tortura começam a formar-se,
a tempestade começa a abater.

Por tão pouco foste-te embora,
as palavras que te escrevi não valeram nada,
o amor que tentei mostrar-te foi ignorado,
só fui esquecido porque
não tenho a cara que tanto procuravas.

Por tão pouco perdi tudo,
só ganhei
uma dôr sem fundo e sem razão,
por gostar de ti a sério,
não sei o que me resta, não.

Cada vez que olho para alguém,
imagino-te presente sempre ao pé de mim,
Deus pregou-me uma partida,
és insubstituível,
Por tão pouco caí.

lundi 24 mars 2008

O amor

Pode-se somar ou subtrair,
multiplicar ou dividir,
quantas vezes for necessário,
tantas vezes até ficar preciso.

O amor, não sei defini-lo,
arde, quando não é correspondido,
mata, quando é sofrido.

Cigarros

Milhares de cigarros são queimados
e agarrados sempre da mesma forma,
andam juntos com o pensamento
de uma pessoa que não se conforma.

Enconstam-no à cabeça desesperados,
à espera que traga as palavras,
mas a nicotina vai criando agarrados,
fingindo que lhes dá paz.

Simbolo forte, mas que tem que ser apagado,
porque as ideias nascem cá dentro,
sem qualquer elemento químico associado,
a dôr só sai numa alma que sente.

Outro eu

Se eu fosse o avesso, do avesso,
do avesso, O que seria?
Seria alguém nesta vida,
ou simplesmente desaparecia?!

Estaria neste lugar,
ou talvez noutro país?...
Talvez tinha morrido,
talvez não sofria.

Talvez estaria do teu lado,
talvez seríamos felizes,
talvez tinhas outra personalidade,
talvez tinhamo-nos entendido.

Ninguém

Com as mãos nos bolsos, sou nada,
sem trabalhar não sou alguém,
não tenho valor, nem moral,
nem comida, nem vintém.

Parado, esqueço o meu lugar,
perco o tempo outrora ganho,
o que eu lutei no meu passado,
é agora desperdiçado.

Sou como um animal tapado,
reduzido ao momento,
apenas tento sobreviver,
para que não me falte alimento.

dimanche 23 mars 2008

Pão Ázimo - Miguel Torga

-Sim... Perdão... Sim... Mas não posso:
Murmuro o padre-nosso
E tenho medo e vergolha!...
Sim... Perdão, Padre... Perdão...
É pecado!...

Pedir!... Pedir o meu pão!...
Uma boca não pede o que lhe é dado!
Sim!... Prometo e comprometo
A minha Fé!...
Mas, ó Padre, quem é...!?
Ah! Não... Não, Padre... Perdão...

- E vem a morte...
- Pois vem...
- E o inferno...
- Também...
Vai pedir o perdão a tua Mãe,
E a teu Pai...
Vai...

- Ninguém me perdoou, Padre, ninguém!
Nem meu Pai, nem minha Mãe!...
Dizem no mesmo tom
Que nem sou mau nem sou bom!...
Não me aceitas disforme,
Mas conforme!...

- Pecador! Faz penitência...
- Já fiz sangue nos joelhos!...
- Faz penitência...
- Já tenho os olhos vermelhos!...
Já dei murros nos ouvidos!...
Já matei os sentidos!...

- Faz Penitência...
- Perdão, Padre! Perdão!...
Mas não!...
Já fiz tudo o que podia!...
- Tem paciência!...
Faz penitência
Mais um dia...

samedi 22 mars 2008

Flôr amiga

O sol da tarde continua sempre presente, agitado por um vento amigo que aparece vindo do mar, a partir do momento que o silêncio da sesta é despertado. O céu de azul permanente marca o início do primeiro dia da Primavera.

A única personagem nesta paisagem idílica é esta flôr de dorso branco, forte, com pétalas em forma de quilha, que mostra toda a generosidade que tem dentro de si ao florir. Flôr, deixa-me dizer o que sinto ao te ver. Eu sei que abraças a moralidade e mostras o teu esplendor vestido num branco casto. Mostras explicitamente uma pureza que nunca foi corrompida e que segue as regras criadas por ti. Tu sabes quem te pode tocar. Tu traças uma linha que só deixas passar quem queres. O resto das pessoas, como eu, apenas têm a oportunidade de sentir o teu perfume intenso e doce à distância. Estou apaixonado por ti. Gostaria de ser alguém importante para ti. Torna a minha vida inesquecível, fazendo os meus sonhos tornarem-se reais.

Minha pequena flôr humilde, que já te tomei como minha por me marcares uma presença indelével, deixa-me ter-te só para mim. Mas tu não queres ser separada das tuas irmãs, porque és benevolente, porque sabes que vocês são mais fortes unidas. Que caridade estás a fazer ao mostrares o teu esplendor. Como resistes a todas as influências e apenas cumpres o teu papel que é mais do que justificativo da tua importância nesta terra.

Tu tornaste-te a minha referência e, antes de te perder no Outono, gostaria ser sempre teu amigo. Pode ser? Visitar-te-ei todos os dias. Prometo!

Obrigado por me deixares guardar este cheiro até ao fim da minha memória. O eterno cheiro a flôr de laranjeira.

mercredi 19 mars 2008

Microcosmos

Quando alguém é belo,
é angustiante olhar para tal ser,
que de tanta virtude nos exalta,
destapando a frustração de não o ser.

Por detrás de tanta vida,
há sempre algo que nos toca,
momentos que nos desconcentra da luta,
que nos faz vítimas da chacota pública.

Algo se torce como um pano,
espremendo o resto da nossa voz,
é a revolta do momento,
apanhado pela tortura que jaz em nós.

Os problemas que as regras levantam,
limitam o alcance da nossa vontade,
condicionam os nossos sonhos,
sonhos fundados na liberdade.

É curioso quando algo parecido acontece,
é como um monstro que aparece,
vindo da noite ao amanhecer,
trazendo o frio da incerteza.

Só nos resta permanecer quietos
e esperar que olhos não tremam,
juntar as pontas descompostas,
derrotados pelos conceitos da natureza.

Hope there's someone - Antony & The Jonhsons

Hope there's someone
Who'll take care of me
When I die, will I go

Hope there's someone
Who'll set my heart free
Nice to hold when I'm tired

There's a ghost on the horizon
When I go to bed
How can I fall asleep at night
How will I rest my head

Oh I'm scared of the middle place
Between light and nowhere
I don't want to be the one
Left in there, left in there

There's a man on the horizon
Wish that I'd go to bed
If I fall to his feet tonight
Will allow rest my head

So here's hoping I will not drown
Or paralyze in light
And godsend I don't want to go
To the seal's watershed

Hope there's someone
Who'll take care of me
When I die, Will I go

Hope there's someone
Who'll set my heart free
Nice to hold when I'm tired

Twilight - Antony & The Johnsons

Twilight
I fall in the Harbor
Twilight
I fall in the hills
But here in the city
That never sleeps
I can fall
Through one's fingers

When the swan
Flies to heaven
Soaring through
The utmost fear
There's a feeling
That lingers in the afterwards
Will you ever return

Twilight
I sit at all tables
With my candles
And angels besides
And I shall wait forever
As the day turns to night
Swallowed in the shadows that glow

When I sought out a light
And I knew darkness swallowed
I beseech, come to me
All alone, come to me.

samedi 15 mars 2008

Cinco personagens

O recém-nascido:

Nasci sem perceber de onde vim,
agarraram-me,
viraram-me ao contrário,
bateram-me para respirar,
vim à terra sem saber
e nunca mais vou descobrir.


O namorado:

Sou feliz, encontrei a vida,
encontrei coragem,
quero ver-te, quero ver-te,
quero ouvir o teu nome
dito pelo padre.


O marido:

As obrigações elevaram-se,
os sentimentos recalcaram-se,
a inocência perdeu-se de vez,
das marés procura-se
construir estabilidade.


A vítima:

Não me mates,
tenho coração para viver,
tenho alma para descobrir,
não me mates,
não me...


O velho:

Desculpa a minha podridão,
estou a morrer,
estou a deixar de sentir,
o meu corpo relaxa,
a mente pára,
não consigo reagir.

Tá perdoado - Maria Rita

Defumei o corredor
Perfumei o elevador
Prá tirar de vez o mal olhado
A saudade me esquentou
Consertei o ventilador
Pro teu corpo não ficar suado
Nessa onda de calor
Eu até peguei uma cor
Tô com o corpo todo bronzeado...

Seja do jeito que for
Eu te juro meu amor
Se quiser voltar
Tá Perdoado!...

Fui a pé a Salvador
De joelho ao Redentor
Prá ver nosso amor abençoado
Nosso lar se enfeitou
A esperança germinou
Ah! Tem muita flor
Prá todo lado
Prá curar a minha dor
Procurei um bom doutor
Me mandou beijar
Teu beijo mais molhado...

E se voltar te dou café
Preliminar com cafuné
Prá deixar teu dia mais gostoso
Pode almoçar o que quiser
E repetir, te dou colher
Faz aquele jeito carinhoso
Deixa pintar o entardecer
E o sol brincar de se esconder
Tarde e chuva eu fico mais fogosa
E vá ficando pro jantar
Tu vai ver só, pode esperar
Que a noite será maravilhosa

Pode almoçar o que quiser
E repetir, te dou colher
Faz aquele jeito carinhoso
E vá ficando pro jantar
Tu vai ver só, pode esperar
Que a noite será maravilhosa...


Ver Maria Rita:

http://br.youtube.com/watch?v=Zap_txvFTGg

Vida no profundo oceano

No mais profundo ponto, lugar onde a imaginação não chega, a natureza consegue atingir com a mesma força como atinge qualquer parte do mundo. A luz não conhece o caminho até ao fundo do oceano, a água permanece estável sob uma grande pressão, milhões de bolhas de cinza saem das pequenas crateras ancoradas na rocha em forma de bilha, mas existe sempre o movimento característico dos seres vivos. Chegamos a este destino graças às máquinas, graças à matéria-prima transformada em instrumentos úteis apenas para os humanos.

Vários peixes, moluscos e crustáceos cumprem o ciclo da vida. Não sei se está correcto em afirmar um ciclo, porque neste local a escuridão é imutável. Peixes sem boca, apenas com um orifício rodeado de dentes pontiagudos perpendiculares à cara, movimentam-se em pequenas tiras negras à procura de comida para sugarem. Outros peixes tentam pintar o escuro com rosáceas violetas que brilham na pele a cada respiração. Tubarões de quatro metros e duas toneladas de força cortam a água a uma velocidade absurda. Polvos morcegos, na forma de uma mão fechada em cone, voam ilusoriamente a cinquenta centrímetros do chão arenoso. Caranguejos escondem-se nas rochas para sobreviverem.

A natureza manifesta-se em milhões de formas inimagináveis, mas sempre com as mesmas regras. Com todo o desprendimento próprio de saber que é diferente, gera vida em qualquer parte que toque.

jeudi 13 mars 2008

Jovens apaixonados

Amo-te com palavras feitas em tijolo,
passeamos longe da cidade,
distante das rotinas,
num campo de sonhos.
Dou-te esta flôr que me levou a mesada,
dou-te a minha mão, a minha cara,
mais não te posso dar.
Somos dois estudantes tolos,
vivemos de simplicidade,
respiramos ingenuidade
e transmitimos esperanças.
Basta-nos ver o sol a morrer,
sentados nos campos, abraçados,
a dizer que apenas precisamos
um do outro.

Opostos

Como é absurdo este ponto
debaixo da exclamação, os cantos
do triângulo serem redondos,
o lago em que te encontras
estar parado.
Os homens são um absurdo.
Absurdo é a fantasia de trazer
paz ao mundo. Precisamos da morte,
precisamos de espaço,
apenas não quero morrer.
Absurdo é pensar que se encontra
o amor perfeito. O que é perfeito
não precisa de companhia.
Todos os ideais fugiram em debandada,
para pontos equidistantes,
impossíveis de reunir.
O ser indivídual e grupal não coexistem.
O que funciona sózinho não trabalha
em conjunto.
Estou na terra da paz, entedeado,
rodeado de guerra,
desejo conquistar o que avisto.
Estou nas terras da guerra,
desejo alcançar o ponto da paz
que se encontra no horizonte.
Incorrecto é estares ao pé de mim,
talvez porque nos amamos,
talvez por sermos perfeitos.

Encontro - (Chacon, Geraldo. Meu Caderno de Poesia. Ed. Flâmula.)

Almas gêmeas?
Não sei...
tanto faz.
O que importa
é que minh'alma
quando encontra a tua
a paz se faz.
Minha alma fica nua,
revela-se, desvela-se e nisso se compraz.
Mas quando o meu
penetra o teu
corpo,
tudo nele se contrai
tudo nele se distrai
e faz-se
morto
de prazer.

Anti-natural

Tu desprezas a natureza, preferes andar à procura do dinheiro e venderes a tua alma ao materialismo em vez de conquistares a incerteza e procurar o teu lugar no mundo, preferes ser levado pela corrente do que lutares, esqueces-te que andas a corromper-te descontroladamente. O teu interior é uma manta esfarrapada que já nem protege uma formiga. O frio há-de secar-te e hás-de morrer vazia, desprezível, sózinha e sem nada. Tu fazes-me chorar de desilusão. Tu és alcóol na fogueira em que passeias.
Eu sempre preservei a honestidade, a bondade, tento reconhecer os meus limites. Sinto-me íntegro e com a força de cem mil homens.

O Universo

Eu não quero saber se existe vida no Universo para além da Terra. Eu quero é saber porque há tantos planetas desertos e quais são os limites do Universo. Pode ser que se crie uma corrente que pense desta forma e nos dê respostas.

Princípio do renascimento

Um grande terreno foi abandonado,
a cultura foi esquecida, está a dar lugar
à aridez.

Um espaço amplo começa a surgir,
pronto para receber plantas rebeldes,
a revolução começa a erguer-se.

Em pé! Em pé, porque tenho que te
cortar. Não quero que te vejam.
Há-de alguém passar por aqui.

mardi 11 mars 2008

Dôr

Deste-me um murro tão bem dado que nem me consigo levantar. Só me apetece ficar aqui deitado a apertar o cigarro e a inspirar toda a desilusão que exalo. A imaginação conseguiu levar a melhor, novamente. Apenas tenho que procurar entender o meu lugar e tomar umas aspirinas de tempo. Com a força da minha dôr, espero que sejas feliz.

Ciclo da vida

Neste momento há alguém que fica a saber que vai morrer, outro que está prestes a morrer e outro que já morreu.
Neste momento há um recém-divorciado que deixou de ter mulher para passar ter uma amante.
Neste momento há alguém que começou a amar. Neste momento há alguém que engravidou sem querer. Neste momento nasceu um bébé.
Cada vez mais não vejo razão para as pessoas chatearem-se. Tudo faz parte do ciclo do universo em que cada indivíduo vive.

dimanche 9 mars 2008

Clareza e expressividade

Com clareza e expressividade procuro transmitir o peso das palavras. As palavras soltas não têm qualquer valor quando são ditas apenas por dizer. Se não houver alma por trás, jamais a beleza aparecerá. Só conseguimos pronunciar abertamente a quem nós gostamos. Por isso, com clareza e expressividade digo que gosto muito de ti.

mardi 4 mars 2008

Carta à mulher

Tu, mulher, ser camaleão. Tu consegues ser várias personagens ao mesmo tempo. Mulher-mãe, mulher-esposa, mulher-filha, mulher-família, mulher-irmã, mulher-trabalhadora, mulher-consagrada e apenas mulher. Obrigado por existires.
Foste tu que trouxeste a beleza, o trabalho, o amor, a compaixão e a dedicação. És tu que consegues curar os homens das feridas de guerra. Tu tens o poder de regenerar a humanidade, o teu coração é um manancial de sabedoria, o teu ventre é a fonte da vida.
Mulher, perdoa todos os homens. Tentamos prestar-te o devido respeito, mas é difícil estar à tua altura. Apenas resta-nos tentar acompanhar-te.
A mulher é a razão do homem existir, do homem trabalhar, do homem pensar e tentar sentir.
Desde a Eva, passando por Maria e Madalena, até ao presente, o sexo feminino é a referência de toda a humanidade. És o elemento que faz o dia nascer, és a força que faz a terra girar.
Vim do ventre da minha mãe, mulher madura que me criou. Agora desejo uma mulher madura para continuar o ciclo.
Por favor, não te deixes enganar pela nossa estupidez. Todos os homens são seres que se perderam ao saírem do colo da mãe. Mulher, nunca percas a delicadeza, nunca páres de olhar-te ao espelho, nunca páres de cuidar-te. Não te queiras transformar-te em homem. Tu és um ser insubstituível e fazes imensa falta. Tu és linda a sorrir. Não te rendas ao consumismo e à vida fútil, tu és deveras superior a estes comportamentos. Tu és muito importante para nós.
Nunca me cansarei de dizer o teu nome. Mostra-me que não estou enganado.

lundi 3 mars 2008

Primavera entre coelhos

Os coelhos estavam a aproveitar o tempo primaveril - comportamento aprendido desde a barriga da mãe, quando o dono chega e diz:
- Mas que vem a ser isto! - enquanto aponta para o sinal. Este sinal diz que o coelho não pode estar atrás da coelha.
Os dois coelhos olham pasmados para o sinal e passados momentos, o coelho vira a parceira ao contrário e continuam o acto natural.

Amor entre gorilas

O gorila Gingão, com a tanga de tigre, sobe a palmeira até à casa da Matumbina. Com côcos nas mãos, enche o peito e grita:
- Querida Matumbina!
- Diz-me amor - replica a sua amada.
- Trago-te côcos. Foram recolhidos do coqueiro mais alto da selva.
- Como és tão forte - Matumbina derrete-se com a virilidade do seu amor.
Gingão flecte os braços de forma máscula para mostrar os grandes montes de força, ao mesmo tempo que regozija o grande feito.
- Vou-te preparar uma água de côco - diz Matumbina.
Gingão sente que tem a amada sobre o seu círculo de domínio e sente-se cada vez mais forte.

Frasco de perfume

Rosa, perfume, cheiro, estou sentado à beira da cómoda. Com dois dedos tiro a tampa do frasco de cristal, boémio como o meu espírito, mas mais activo que a minha personalidade. É de certeza perfume digno de grande nobreza. Cheiro a ponta da tampa e sinto pequenos fios ondulantes a saracotearem-se pelo espaço, deixando partículas deliciosas pelo caminho.
Trata-se de um perfume subtil, em que se coloca duas gotas nos pulsos da mulher, encosta-se ao nariz e inspira-se com intensidade, enchendo os pulmões de sensualidade e relaxamento.
Eu tento ser feliz com a realidade, mas a imaginação consegue ser mais forte do que eu. Ela faz-me refém da vida e está constantemente a intrometer-se no caminho. Umas vezes voluntariamente, outras vez obrigada por terceiros. Eu não resisto à beleza. Trata-se da maior tentação existente.
Imagino-te à minha frente, sentada sobre a mesma cómoda a sacudires os cabelos e, logo de seguida, a afagá-los com uma escova branca, transmitindo-me paz.
Sentas-te na beira da cama, eu sento-me ao piano e começo a tocar uma melodia suave. Tento descrever pelas teclas o cheiro sublime que exalas. Cada sequência de harpejos tocados em pianíssimo corresponde a uma centelha de perfume.
Mas tu não estás ao pé de mim, estás num mundo inantingível. Ainda não nasci com o poder de criar almas. Fecho o frasco porque tenho que ir trabalhar.

dimanche 2 mars 2008

A velhice

Estou tão magro. Os meus pés estão cheios de manchas castanhas. Parecem borrões feitos com lixívia. Mal consigo olhar para mim, sou uma zebra pintada de doenças e nódoas negras. Os dentes saltam do meu interior. O meu aspecto cadavérico, seco, mostra como estou cada vez mais próximo da terra e das larvas.
Admito que fui cobarde por nunca ter-me entregado à natureza, mas a sociedade e a família não me deixaram. Já próximo da entrada deste novo mundo, prestes a apodrecer e a gretar, espero que algo mais esperançoso me traga serenidade ao coração e me ensine a ser um sublime revolucionário.

Quarto escuro, quarto triste.

Estou sózinho escondido neste quarto escuro,
sinto falta de uns olhos onde possa imaginar.
Estou sózinho a passear num preto vazio,
sinto falta de uma alma que me possa acompanhar.

Estou sózinho a encontrar o caminho,
rezo por encontrar forças por detrás dos armários,
como traças e teias de aranhas sem sentido,
gasto as tábua do chão por andar sempre em círculos.

Estou sózinho porque ninguém me vê,
não consigo vender o reflexo dos meus sonhos
a um único ser com ouvidos.

Existem mais de mil quartos iguais ao meu,
cheio de anónimos que morrem pelo caminho,
espero ter um fim glorificado pelos sentidos.

A praia

Terra, gravilha, areia e mar,
fui à praia num fim de um dia de estio,
após acordar de uma sesta com cheiro a palha,
pelo chão seco e quente passeei o espírito infantil.

Caminhei quilómetros até ao destino,
percorri pausadamente até à alegria,
fiz uma história de sonhos pelo caminho,
guardei-os na imaginação reservada para este dia.

Tomei banho num mar acabado de ser usado,
onde guarda os raios de sol na espuma,
mergulhei por debaixo de um bater ritmado.

Levantava-me e procurava o horizonte,
a minha linha guia para continuar,
Espuma, sal e sonhos, em vão, dissolvidos.